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I – Introdução: Educação, sociedade em rede e transformação digital

A Educação tem vindo, desde o início do século XX, a sofrer uma evolução contínua, percorrendo as fases históricas: Educação 1.0 (Educação baseada na memorização e transmissão passiva de conteúdos), Educação 2.0 (acesso aberto, aprendizagem passiva e ativa), Educação 3.0 (Educação de consumo, aberta, colaborativa, flexível e criativa) e, finalmente, Educação 4.0 (acesso aberto, orientada para a mudança, com aprendizagens dinâmicas, independentes, ativas, inovadoras e autónomas) (Milev & Dimitrov, 2024).

A sociedade em rede e a consolidação da era pós-digital em que vivemos e trabalhamos atualmente definem um novo cenário educativo, em que o digital deixou de ser um elemento externo ou inovador para tornar-se uma condição estrutural da vida social, cultural e institucional. Neste contexto, a Educação enfrenta desafios que ultrapassam a adoção de tecnologias ou a modernização de práticas pedagógicas, exigindo uma reflexão profunda sobre os seus fundamentos epistemológicos, éticos e antropológicos.

A aprendizagem da atualidade desenvolve-se em ecossistemas diversificados, marcados pela conectividade permanente, pela abundância de informação e pela mediação crescente de algoritmos e dados, o que coloca em causa noções tradicionais de domínio do conhecimento e dos papéis do docente/formador e do aprendente.

A sociedade em rede reconfigura igualmente as dimensões comunitárias da aprendizagem, articulando-as com processos de ensino-aprendizagem mais centrados no discente, assentes em colaboração, autonomia, sentido crítico, criatividade e literacia digital (Castells, 2016).

Perante este cenário, a Educação é, mais do que nunca, chamada a afirmar-se, não apenas como espaço de inovação tecnológica, mas como um projeto crítico e humanista, orientado para a formação de sujeitos capazes não só de compreender, questionar e intervir de forma responsável num mundo profundamente interconectado, mas também de adquirir as ferramentas para responder eficazmente às exigências do mercado de trabalho e das dinâmicas vindouras.

Os vídeos (1) “Education 4.0 – Transforming the future of education (through advanced technology)”, (2) “Digital transformation of teaching and learning” e (3) “AI, the future of education” foram selecionados no trabalho prévio elaborado pela equipa capa, dentre os cinco filmes propostos pelo Professor para a abordagem à temática Reticularização e datificação dos processos educativos, da Unidade Curricular Educação e Sociedade em Rede, na medida em que, em conjunto, oferecem uma visão coerente e complementar da transição pedagógica necessária na sociedade atual, funcionando como dispositivos de problematização da transformação educativa.

O presente comentário de síntese propõe uma leitura integrada desses materiais e da bibliografia recomendada para o tema, com o objetivo de refletir criticamente sobre a transformação da Educação na era pós-digital, apresentando um percurso que procura compreender como a Educação no geral e a Educação Superior/ Profissional, em particular, podem responder às mudanças tecnológicas profundas e aceleradas, contextualizadas pela transformação digital e pela IA, sem abdicar da sua missão social, ética e emancipatória.


II – Contexto e análise

O primeiro vídeo apresenta uma visão prospetiva da Educação 4.0, enquadrando-a como resposta às transformações tecnológicas, económicas e sociais associadas à 4.ª Revolução Industrial. A caracterização do vídeo evidencia uma abordagem institucional e estratégica, centrada no desenvolvimento de competências do século XXI, como autonomia, criatividade, colaboração e pensamento crítico, bem como na necessidade de preparar os estudantes do ensino superior (e profissional) para contextos profissionais em constante mudança.

O vídeo constitui um ponto de partida para questionar e aprofundar modelos de ensino e metodologias inovadoras, promovendo a articulação entre fundamentos epistemológicos e práticas pedagógicas centradas no aprendiz, bem como a redefinição do papel do professor enquanto mediador de experiências educativas orientadas para o desenvolvimento de competências. Enquadrada na perspetiva da Sociedade em Rede, esta abordagem concebe a Educação como parte de ecossistemas digitais baseados na colaboração, na comunicação em rede e na produção partilhada de conhecimento, valorizando práticas autónomas, criativas e conectadas. Simultaneamente, convoca a uma reflexão crítica sobre as relações entre tecnologia, mercado de trabalho e modelos educativos, desafios como a governança das tecnologias, as desigualdades de acesso, a literacia digital e científica e a formação docente contínua.

O segundo vídeo assume um registo mais reflexivo e crítico, problematizando o conceito de transformação digital no contexto educativo.

A caracterização evidencia a distinção entre digitalização superficial e transformação pedagógica profunda, defendendo que a tecnologia deve servir propósitos educativos e humanos, e não determinar automaticamente as práticas de ensino.

A análise desenvolvida valoriza a clareza conceptual do vídeo e o seu posicionamento humanocêntrico, sublinhando a importância de compreender a Educação como um fenómeno social, cultural e ético. Como resultado da análise, conclui-se que o vídeo contribui de forma significativa para a compreensão da Educação na sociedade em rede e na era pós-digital, ao alertar para os riscos do tecnocentrismo e ao defender uma abordagem crítica, contextualizada e orientada por valores.

Embora o autor defenda que os fundamentos do ensino superior e da aprendizagem permanecerão essencialmente os mesmos, com a transformação a ocorrer sobretudo ao nível das ferramentas, esta posição pode ser questionada, pois as tecnologias têm vindo a flexibilizar a aprendizagem, a alterar os modos de avaliação e a redefinir os papéis de professores e estudantes, bem como as formas de produção do conhecimento.

O vídeo poderia também ter aprofundado os desafios estruturais da transformação digital, que vão além de uma abordagem tecnocêntrica e incluem a capacitação docente, a reorganização institucional, a qualidade pedagógica e a resistência à mudança, a que acresce a necessidade de uma análise mais consistente de práticas colaborativas, personalizadas e centradas no estudante.

O terceiro vídeo centra-se na relação entre Inteligência Artificial (IA) e Educação, questionando o impacto das tecnologias inteligentes nos processos de ensino e aprendizagem. A caracterização do vídeo destaca a abordagem problematizadora, que contrapõe as potencialidades da IA — como personalização da aprendizagem e apoio ao professor — aos receios de substituição do humano e de automatização excessiva da Educação. A análise crítica desenvolvida conclui que o principal contributo do vídeo reside na afirmação clara da insubstituibilidade da relação pedagógica humana, bem como na introdução de questões éticas, antropológicas e sociais associadas à dataficação da Educação. Contudo, identifica-se também a necessidade de aprofundar dimensões como governança, equidade e regulação, que permanecem apenas parcialmente exploradas no discurso apresentado.


III – Tensões, dilemas, potencial transformador e implicações da transformação digital na Educação

Existe a necessidade de pensar e implementar/desenvolver a transformação educativa como processo coletivo e deliberado, tendo em conta os riscos, desafios e potencialidades deste processo, aproveitando para reforçar e reinterpretar valores; investigar, melhorar e adaptar metodologias e estratégias de aprendizagem sustentadas pela epistemologia; reconfigurar as relações sociais proporcionadas pela conectividade e pelas tecnologias; e reforçar os princípios e valores éticos.

Decorrente da análise dos vídeos e da bibliografia recomendada para o tema – Bates, A. W. (2017). Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem (1.ª ed.). Artesanato Educacional. (Tradução de Teaching in a Digital Age: Guidelines for Designing Teaching and Learning; Grajek, S, (2020). How colleges and universities are driving to digital transformation today EDUCAUSE (ER20SR214) e Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1), 107–126. – é possível identificar os principais problemas e desafios, bem como potencialidades e implicações deste processo transformador nas instituições de ensino superior.

Imagem: freepik

Principais problemas e desafios

No âmbito do conhecimento:

  • Conhecimento abundante, instável e distribuído (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Crise das formas tradicionais de autoridade e de validação científica do conhecimento (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Necessidade de literacia crítica;
  • Mediação pedagógica/investigação das práticas pedagógicas;
  • Ensino verdadeiramente centrado nos aprendentes (Grajek, 2020);
  • Investigação-ação centrada na melhoria e adaptação de metodologias e estratégias de aprendizagem que promovam autonomia, aprendizagens significativas e aquisição de competências flexíveis — incidência na resolução de problemas complexos, elaboração de projetos colaborativos e literacia digital;
  • Melhor desenvolvimento e utilização da Educação aberta (REA, PEA, MOOCs) virada para a problematização e solução de problemas.

No âmbito da tecnologia educativa, dataficação e utilização da IA:

  • Promover o humanismo, em detrimento do tecnocentrismo;
  • Saber utilizar e beneficiar da análise de dados educativos para favorecer a aprendizagem personalizada;
  • Riscos de reduzir o sujeito a perfis algorítmicos e perda de autonomia;
  • Cuidados éticos;
  • Integração digital de sistemas e aplicações tecnológicas (Grajek, 2020);
  • Privacidade e segurança da informação (Grajek, 2020);
  • Riscos de reduzir o ensino à eficiência técnica;
  • Transformação digital orientada por valores humanos e pedagógicos;
  • Acentuação das desigualdades no acesso às tecnologias por parte dos mais desfavorecidos / estudantes dos países em vias de desenvolvimento.

No âmbito das práticas pedagógicas:

  • Apoio individualizado e personalizado dos estudantes (Grajek, 2020);
  • Aluno como elemento central, autónomo, crítico, criativo, colaborativo e proficiente tecnológica e cientificamente;
  • O papel do professor.

No âmbito da sustentabilidade das instituições, da organização e certificação (de ensino superior):

  • Financiamento;
  • Surgimento de um mercado educacional não regulamentado (a Educação como mercadoria) (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Desinvestimento das instituições no domínio da investigação — impacto na inovação sustentável (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Melhoria das condições de acesso (Grajek, 2020);
  • Simplificação administrativa (Grajek, 2020).

No âmbito dos valores universais:

  • Proteção dos direitos fundamentais adquiridos no domínio da Educação;
  • Promoção dos valores democráticos, éticos, de inclusão e de respeito pela diversidade;
  • Defesa do respeito pela tolerância e convivência social.

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Potencialidades e implicações identificadas:

  • Liderança da inovação educativa por parte das instituições educativas (sobretudo universidades);
  • Amplificação do acesso e democratização do conhecimento;
  • Apoio à aprendizagem personalizada e à combinação e reconhecimento de múltiplos tipos de aprendizagem (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Reforço da aprendizagem ao longo da vida;
  • Reformulação do papel do docente para o papel designer, mediador e facilitador de experiências de ensino significativas, mentor e agente ético;
  • Inteligência coletiva através do trabalho em rede (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Participação da comunidade (especialistas ou não) em trabalho colaborativo nas instituições de ensino superior — crowdsourcing educativo (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Simplificação e desburocratização das organizações educativas;
  • Defesa da Educação como prática social, cultural e ética, através do desenvolvimento do sentido crítico, criatividade, comprometimento social e comunitário (Teixeira, Bates & Mota, 2019), orientada para a emancipação dos aprendentes;
  • Reorientação na pesquisa e na inovação dos processos de ensino-aprendizagem (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Investimento no uso e reutilização de REA e PEA (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Formação contínua de docentes e funcionários do ensino superior (Teixeira, Bates & Mota, 2019);
  • Existência de laboratórios colaborativos entre instituições — transferência de conhecimento em articulação com ONG, administração pública e empresas (Teixeira, Bates & Mota, 2019).

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IV- Conclusão: Educação para um futuro humano consistente, democrático e ético

Como foi mencionado nos pontos precedentes, a Sociedade em Rede e as exigências da 4.ª Revolução Industrial redefinem profundamente a Educação, ao articular como elementos de elevada importância a aprendizagem colaborativa, a autonomia, a autoformação,  a aprendizagem ao longo da vida, o sentido crítico, a capacidade de resolução de problemas complexos e a criatividade – aspetos essenciais para a sobrevivência no mercado de trabalho.

No entanto, na era pós-digital em que vivemos, o desafio da Educação não é apenas tecnológico, é,  acima de tudo, epistemológico, ético e político.

A governança da Educação na era pós digital deve integrar ética, proteção de dados, equidade no acesso às tecnologias, educação de qualidade e justiça social.

A relação homem-máquina-Educação exige, por isso, literacia digital, definição dos limites da automatização educativa e valorização do que é insubstituivelmente humano no ato educativo.

Com ações a todos os níveis – Estados, governos, empresas, instituições de ensino, comunidades científicas e educativas, docentes e estudantes – a Educação deve afirmar-se como aberta, pela democratização do acesso ao conhecimento; crítica, pela capacidade de questionamento, incluindo das tecnologias e dos discursos dominantes; e humanista, ao colocar o ser humano, a comunidade e o bem comum no centro da equação.


Trabalho prévio da equipa capa (Eliane Marquezoni, Esmeralda Cavel e Judite Santos):


Referências:

Bates, A. W. (2017). Educar na EraDigital:Desing, ensino e aprendizagem. https://www.abed.org.br/arquivos/Educar_na_Era_Digital.pdf

Bozkurt, A. [C3L] (2021/11/18). Digital transformation of teaching and learning. Youtube https://www.youtube.com/watch?v=i-8iU9f8rkY

Castells, M. (2016, 26 de janeiro). Reflexiones sobre la nueva educación [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=AAkAmRJT5dA

Grajek, S. (2019-2020). How colleges and univerities are driving to digital transformation today. EDUCASE. https://elearning.uab.pt/pluginfile.php/4131030/mod_resource/content/1/ER20SR2 14.pdf

Jisc. (2019). Education 4.0 | Jisc | Transforming the future of education (through advanced technology) [Video]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=aVWHp8FsV1w

Milev, P., & Dimitrov, K. (2025). A new frontier: The convergence of emerging digital technology and higher education. In N. Sterev & P. Biolcheva (Eds.), Proceedings of the 3rd International Scientific Conference “Industrial Growth Conference 2024” (pp. 357–365). Az- buki National Publishing House. https://azbuki.bg/wp-
content/upload s/2025/03/sbornik_2024_plamen-milev.pdf

Plastico Film (2023). AI AND THE FUTURE OF EDUCATION .Will Robots Replace… [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=-d2VRgej_cY

Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1), 107–126. https://doi.org/10.5944/ried.22.1.22288

2 respostas a “Inovação tecnológica e humanismo educativo: uma leitura crítica da transformação na era pós-digital”

  1. Avatar de Eliane Marquezoni
    Eliane Marquezoni

    Olá Judite,
    Gostei muito da sua análise e da forma clara como evidencia que a transformação educativa não se esgota na mera adoção de tecnologias, exigindo antes mudanças de natureza epistemológica, pedagógica e institucional. Destaco, em particular, a valorização da literacia crítica, da equidade no acesso e da preservação da relação pedagógica humana, aspetos que dialogam de forma muito consistente com a perspetiva defendida por José Mota, quando sublinha a importância de uma Educação em rede orientada por valores humanistas, colaborativos e emancipatórios, onde a tecnologia deve servir o desenvolvimento do sujeito e não substituir o vínculo educativo.

    Boas Festas,

    Eliane

  2. Avatar de Judite dos Santos
    Judite dos Santos

    Cara Eliane,
    Obrigada pelo comentário.
    Foi um prazer trabalhar contigo e com a Esmeralda.
    Votos de excelente 2026!

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