Explorando as múltiplas características, dimensões e impactos da Cibercultura, segundo Pierre Lévy
1. Introdução
Pierre Lévy (Tunis, 1956), professor, escritor, filósofo e sociólogo francês, é investigador e autor de diversas obras, como As Tecnologias da Inteligência, A Inteligência Coletiva, Cibercultura, Ciberdemocracia e O Que é o Virtual?, as quais apresentam elementos essenciais para compreender as imensas possibilidades das tecnologias emergentes nas sociedades digitais (Hermoso, B., 2021, El País, https://brasil.elpais.com/eps/2021-07-01/pierre-levy-muitos-nao-acreditam-mas-ja-eramos-muito-maus-antes-da-internet.html).
Este texto foi elaborado com o objetivo de explorar o fenómeno da Cibercultura, conforme apresentado por Lévy na sua obra sobre o tema. É muito atual e relevante para compreender a natureza multifacetada da Internet na produção e circulação cultural, para perceber uma nova dinâmica comunitária alicerçada na colaboração contínua e na abertura à diversidade e à alteridade, e para construir uma consciência crítica em relação às mudanças tecnológicas e suas implicações. (Teixeira 2025)
O presente comentário pretende, também, apresentar a realidade complexa e multidimensional da Cibercultura de forma mais acessível, procurando traduzir a linguagem filosófica e sociológica de Lévy – por vezes abstrata —destacando as suas múltiplas perspetivas e mostrando como esses conceitos podem ser aplicados no contexto social e educativo.

Imagem futurista VR | www.freepik.com
2. Exploração inicial: Cultura Tradicional vs Cibercultura
A Cultura Tradicional pode ser definida como um “sistema complexo de códigos e padrões partilhados por uma sociedade ou grupo social, manifestando-se nas normas, crenças, valores, criações e instituições da vida coletiva” (Infopedia, 2025). Constitui um produto da vida coletiva e dos factos sociais que moldam práticas culturais, não se restringindo a arte ou costumes, mas incluindo o sistema de significados que orienta a interpretação do mundo (Geertz, 1973).
A Cibercultura é definida genericamente como “conjunto de culturas ou produtos culturais veiculados pela Internet, assim como valores, linguagem e ícones partilhados pelos utilizadores da rede” (Infopedia, 2025). Para Lévy (2000), trata-se de uma cultura emergente do ciberespaço, marcada pela interconexão global, inteligência coletiva, virtualização e pluralidade de sentidos. Constrói-se sobre comunidades virtuais, expandindo-se através da digitalização, redes interativas e participação colaborativa, diferenciando-se da cultura tradicional por rejeitar um sentido único, promover comunicação todos-para-todos e instaurar a “universalidade sem totalidade”.
A origem da Cibercultura está associada a um movimento social internacional de jovens que exploraram novas formas de comunicação interativa através do ciberespaço — ambiente de comunicação global criado pela interligação de computadores e memórias digitais — o qual possibilita a circulação de informações, relações, comunidades e práticas culturais próprias da era digital (Lévy, 2000).
A tabela abaixo resume as diferenças entre Cultura Tradicional e Cibercultura:

3. O dilúvio da informação: desafios e oportunidades
O “dilúvio da informação” refere-se à intensidade, velocidade e excesso de informação que caracteriza a atualidade. Vivemos inundados de informações constantes, o que exige competências de filtragem, navegação e sentido crítico por parte de cada utilizador.
Lévy (2000) afirma: “O dilúvio da informação não diminuirá… Há que aceitá-lo como uma condição nova.” Este excesso não é destrutivo; ao contrário, abre espaço para a cooperação humana e para a construção de conhecimento a partir da informação, redesenhando oportunidades de pluralidade e colaboração.
Ao introduzir a metáfora da Arca de Noé antiga, a preservação tinha um sentido literal e biológico: salvar a espécie e a humanidade do dilúvio, garantindo a continuidade da vida, simbolizando o armazenamento de conhecimento e de elementos vivos e não vivos, valiosos, num espaço limitado e seguro, protegendo-os do caos exterior.
Em Cibercultura (Lévy, 2000), não existe uma única arca que salva o essencial, mas muitas “arcas” diferentes, cada uma transportando parte da memória e da cultura humana, pois “o novo Noé vê então outras arcas a navegar com a sua e cada uma dessas arcas contém uma seleção diferente… cada uma quer salvar a diversidade.” Nas novas arcas de Noé, digitais e coletivas, a preservação é, portanto, simbólica e cultural: o objetivo é proteger informação, conhecimento, experiências, cultura e criatividade humanas. Não havendo um centro único de preservação, cada utilizador, comunidade e rede contribui para a memória coletiva global e tem, assim, um papel na preservação “do património cultural essencial”.
4. Tecnologias digitais: papel e expressões técnicas
Lévy (2000) esclarece que a tecnologia condiciona, mas não determina modos de vida.
A tecnologia não é um “agente exterior” que causa impactos na sociedade, pois faz parte da humanidade, sendo produto e motor das práticas culturais e sociais.
Ela abre assim possibilidades de ação e organização social, mas o seu significado e efeitos dependem da apropriação e da forma de utilização individual e coletiva.
O conceito de inteligência coletiva surge como núcleo ético e político da cibercultura: é a capacidade de processar e gerar conhecimento colaborativamente, mediada por tecnologias digitais. Tal como um pharmakon — remédio e veneno —, as tecnologias podem ampliar criatividade, aprendizagem e solidariedade, mas também intensificar desigualdades caso o acesso não seja universal.
Relação entre tecnologias digitais, ciberespaço e virtualidade:

5. O papel caleidoscópico da Internet
A Internet constitui a infraestrutura fundamental do ciberespaço. Lévy (2000) vê-a não apenas como artefacto técnico, mas como ambiente comunicacional que possibilita novas formas de sociabilidade, conhecimento e criação.
O caleidoscópio é um “instrumento de ótica recreativa, formado de pequenos espelhos inclinados, mas paralelos a determinada direção, e por pequenos fragmentos de vidro colorido, missanga, etc., e que, a cada movimento, apresenta imagens variadas e simétricas” (Infopedia, 2025). Esta ideia pode ser aplicada à visão de Levy sobre a Internet: a rede combina simultaneamente todos os tipos de comunicação anteriores — oral, escrita, fotografia, artes plásticas e audiovisual — e permite a criação de formas novas, como hipertexto, interatividade, multimédia, redes sociais, colaboração simultânea…
A Internet torna-se caleidoscópica porque integra múltiplos media, recombina formatos, personaliza percursos e oferece sentidos plurais em fluxo contínuo. Tal como os espelhos e fragmentos do caleidoscópio, os diversos elementos informacionais e artísticos da Internet são reorganizados pelo utilizador / participante, produzindo padrões e experiências únicas. Cada navegação, cada interação ou combinação de conteúdos altera o “padrão”, criando uma experiência nova de conhecimento e expressão, permitindo que cada utilizador construa o seu próprio espaço informacional e artístico.

Imagem: Freepik.com
6. Consciência crítica, riscos e limites
O ciberespaço é um ambiente técnico, informacional e comunicacional criado pela interconexão global de computadores (Lévy 2000), constituindo um novo espaço simbólico. A virtualização permite que mensagens, objetos e práticas sociais se tornem digitais, recombináveis e partilháveis.
O pensamento crítico intervém na orientação desses fluxos. É preciso considerar medos relacionados com a técnica desumanizante, com a confusão entre real e virtual e com a manipulação da informação. A Cibercultura, ao criar um “universo sem totalidade”, desafia antigos limites de poder e controle comunicacional.
Apesar das oportunidades, Lévy alerta para riscos, dos quais se destacam:
- Exclusão digital e desigualdade de acesso à tecnologia;
- Alienação e dependência tecnológica;
- Diluição de tradições e culturas locais.
A Educação assume papel determinante ao desenvolver literacia digital, ensinando a filtrar, interpretar e utilizar informação de forma ética e produtiva, aproveitando benefícios e minimizando riscos.
7. Pluridimensionalidade da Cibercultura: exemplos
The Golden Calf (1994), Jeffrey Shaw: instalação em realidade aumentada (AR), em que o visitante vê um veado dourado virtual ao movimentar um monitor sobre um pedestal. Integra o virtual no ambiente físico. Link do autor
Osmose (1994–1995), Char Davies: realidade virtual imersiva com gráficos 3D, som espacializado e navegação controlada pela respiração e equilíbrio corporal. Dissolve fronteiras entre corpo, mente e espaço virtual. Link do autor
Wikipédia (2001): enciclopédia livre, colaborativa e multilíngue, onde qualquer pessoa pode editar conteúdos. Reflete inteligência coletiva, memória ativa e virtualidade do conhecimento. Wikipedia

Imagem: screen shot da página inicial da Wikipedia
Análise dos exemplos segundo algumas das características da Cibercultura:

8. Conclusão
Lévy defende que a cibercultura representa um novo tipo de universalidade, distinta das formas culturais tradicionais, construída a partir da abertura, multiplicidade e ausência de sentido global pré-determinado. A interligação de mensagens e a participação em comunidades virtuais promove sentidos diversificados e em constante renovação.
Enquanto a Cultura Tradicional tende a um sentido fechado, a Cibercultura permite construção coletiva em fluxo contínuo, com oportunidades para aprendizagem, colaboração e inovação.
A cultura é essencial porque:
- Estrutura a forma como pensamos e sentimos;
- Constrói identidades individuais e coletivas;
- Permite comunicação e convivência social;
- Gera criatividade, inovação e memória;
- Molda a vida política, económica e simbólica.
A Cibercultura acrescenta: construção coletiva de conhecimento, interatividade, multiplicidade de significados e experiências imersivas, que transcendem os limites tradicionais de espaço e tempo.
Em suma, a Cibercultura oferece enormes oportunidades, mas exige reflexão crítica e responsabilidade, transformando o ciberespaço em ambiente de cultura, inteligência coletiva e participação democrática.
Nota: Post atualizado em 18.11.2025, com a introdução de uma referência em falta.
Referências
- Davies, C. (1995). Osmose. Immersence. https://www.immersence.com/osmose
- Freepik. (2025). Freepik. https://www.freepik.com
- Hermoso, B. (2021). El País. https://brasil.elpais.com/eps/2021-07-01/pierre-levy-muitos-nao-acreditam-mas-ja-eramos-muito-maus-antes-da-internet.html
- Porto Editora. (2025). Infopédia. https://www.infopedia.pt
- Lévy, P. (2000). Cibercultura. Instituto Piaget
- Teixeira, A. (2025). Contrato de aprendizagem da UC Educação e Sociedade em Rede. Universidade Aberta
- Jeffrey Shaw Compendium. (2025). Golden Calf. https://www.jeffreyshawcompendium.com/portfolio/golden-calf/
- Wikimedia Foundation. (2025). Wikipédia. https://www.wikipedia.org/




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