

Salvador Dalí
À esquerda: vetorização com base numa imagem real (Pixabay); à direita: criação de uma simulação da sua imagem com recurso a IA (DALL.E) e posterior edição digital
I – INTRODUÇÃO
Vivemos atualmente numa era em que o desenvolvimento tecnológico acelerado coloca novos desafios às formas como nos relacionamos enquanto seres humanos e, sobretudo, aos “novos valores” que adotamos nas nossas relações sociais. Esse desenvolvimento cria ruturas com a socialização tradicional, tal como a conhecíamos até há relativamente pouco tempo, em que a presença física e a interatividade presencial definiam a sua essência. As tecnologias digitais assumiram um desenvolvimento de tal modo acelerado, que disromperam o modo como essas relações se encontravam encapsuladas e orientadas.
Como mote para o lançamento das reflexões em debate, foi apresentada a instalação interativa do Museu Dalí em São Petersburgo (Flórida, EUA), onde um Dalí digital — produzido por técnicas de deepfake, inteligência artificial e realidade virtual — “ressuscita” a afirmação do pintor: “Se algum dia eu vier a morrer, o que é improvável, espero que as pessoas nos cafés digam que Dalí morreu, embora não totalmente”, num cenário em que o real e o artificial se entrecruzam de forma indiscernível, gerando uma experiência simultaneamente fascinante e desconcertante.
A partir desse exemplo, e no sentido de enquadrar o debate, foram colocadas pelo Professor as seguintes questões: “Quem são e como são verdadeiramente esses outros que encontramos na rede? Que são eles por detrás das máscaras que constroem digitalmente? Que somos nós de nós próprios no mundo pós-digital? Somos ou poderemos ser transparentes? São as imagens que partilhamos de nós autênticas? Que dizem de nós? Tudo? Nada?” (Teixeira, 2025)
“Por outro lado, como poderemos assegurar a autenticidade da informação? Pela sua transparência? Quem a valida ou autentica? Quem o poderá fazer? A própria comunidade? A própria rede? Será pela transparência dos processos de partilha? Como e em quem poderemos confiar na rede? Como se poderá garantir a qualidade da informação e a idoneidade da sua utilização?” (Teixeira, 2025)
Foram solicitadas aos estudantes intervenções reflexivas à luz das perspetivas críticas dos filósofos franceses Jean Baudrillard (1929-2007), que cunhou os conceitos de hiper-realidade e simulacro, argumentando que a realidade é substituída por signos e imagens (simulações), onde a distinção entre o real e o imaginário se dissolve; e Paul Virilio (1932-2018), que analisou como a velocidade tecnológica e a informação digital transformam a sociedade, o espaço e a perceção, questionando os efeitos da aceleração constante na nossa noção de tempo e de realidade.
A atividade consistiu em dividir o debate em duas fases:
- numa primeira, em pequeno grupo, onde os estudantes refletiram sobre as perspetivas dos filósofos acima mencionados, num confronto entre as suas visões;
- numa segunda fase, em grupo-turma alargado, tendo sido explorado, sobretudo, como encarar a autenticidade, a confiança e a transparência na realidade tecnológica atual e que caminhos assumir face a essa realidade enquanto cidadãos e profissionais da educação e formação.

II – DEBATES INICIAL E FINAL
1. Simulacro e dissolução do real versus dromologia e risco de aceleração
Os participantes “partidários” de Baudrillard defenderam que a tecnologia cria um regime de hiper-realidade, onde imagens e representações já não remetem para um real, mas se tornam novas realidades autónomas. Foram destacadas as quatro fases da imagem (reflexo, distorção, fingimento e simulacro puro) e exemplos de como a desinformação durante a pandemia ilustra que o hiper-real pode tornar-se mais convincente do que o real.
Neste quadro, a autenticidade e a confiança tornam-se conceitos instáveis, porque o “original” já não é reconhecível.
A participante que representou as ideias de Virilio destacou que a revolução tecnológica é marcada pela velocidade, que comprime o tempo e elimina a experiência reflexiva, pois a comunicação instantânea gera colapso da atenção, superficialidade e dificuldade em distinguir o verdadeiro do irrelevante. Foi apresentada a perspetiva de que, apesar de crítico, Virilio admite uma certa margem de resistência: “o direito à cegueira”, isto é, a interrupção consciente do fluxo tecnológico para recuperar profundidade e autenticidade.
No debate houve consenso de que a tecnologia fragiliza a autenticidade e a confiança, mas emergiram diferenças importantes:
- Para Baudrillard, a perda do real é estrutural e irreversível.
- Para Virilio, o problema é a velocidade excessiva, mas ainda é possível resistir através da desaceleração e da reflexão.
Foi referido que os fóruns assíncronos funcionam como espaços de resistência à velocidade e ao simulacro, por permitirem tempo de elaboração e construção de sentido.
A instalação do Museu Dalí, onde o artista “renasce” por deepfake e IA, foi entendida como um exemplo prático:
- para Baudrillard, trata-se de um simulacro puro — uma figura que já não representa Dalí, mas funciona como se fosse;
- para Virilio, o foco está na velocidade da criação e circulação dessas imagens e no risco de manipulação, confusão documental e banalização da falsificação digital.
Das reflexões surgiram duas ideias orientadoras:
- Vivemos entre simulacro e velocidade, o que pressiona a autenticidade e a confiança.
- Ainda existem margens de ação, como espaços de reflexão, resistência à aceleração e práticas digitais críticas.

2- Entre o risco e a possibilidade – construir novas formas de autenticidade, transparência e confiança no mundo pós-digital
Partindo das questões iniciais colocadas pelo Professor – “a transformação tecnológica digital está a alterar a nossa perceção e entendimento do que é a autenticidade e a transparência nas relações humanas?” e “de que modo essa alteração, a existir, afeta a construção de relações de confiança entre os cidadãos ou transforma o tipo de ligação que se estabelece entre os membros das diferentes comunidades humanas?” (Teixeira, 2025) – emergiram reflexões e propostas de ação com vista, não à recuperação da autenticidade, transparência e confiança tal como existiam tradicionalmente, mas à construção de novas formas de autenticidade, transparência e confiança ajustadas às relações sociais – cidadãs e profissionais – mediadas pelas tecnologias digitais e pelo papel que estas assumem hoje e no futuro.
A partir das perguntas iniciais, o debate refletiu três grupos de ideias centrais.
a) A tensão entre promessa e risco na era digital
Foi destacado o potencial das tecnologias para ampliar conexões, diversificar formas de expressão, facilitar o acesso à informação e criar espaços participativos, antes impossíveis. No entanto, alertou-se também para os perigos da mediação tecnológica: opacidades algorítmicas, construção de identidades falsas / filtradas, ritmos acelerados que corroem a reflexão e o sentido crítico e possíveis formas de vigilância tecnológica.
Face às perspetivas críticas de Baudrillard e Virilio, reforçou-se a ideia de que há espaço para agir, mesmo dentro de um cenário crítico. Ou seja, aceitando os seus alertas, não estamos condenados: há margens de intervenção.
b) Novas questões – uma viragem na abordagem
Das questões que foram sendo colocadas ao longo desta fase do debate, sintetiza-se o seguinte:
- Como contrariar a hiper-realidade?
- Como pode a educação promover práticas de transparência e confiança? O que fazer?
- Será possível “reinventar a autenticidade” ou adequá-la ao novo contexto, em vez de recuperar uma versão “pré-digital” que só pode existir nas relações presenciais tradicionais?
Foram também destacados os fatores tecnológicos que amplificam o simulacro:
- algoritmos que personalizam realidades;
- plataformas que privilegiam métricas performativas;
- excessos de estímulo e produtividade;
- formas de comunicação que favorecem o imediato, em detrimento do profundo.
Neste âmbito, conclui-se que é precisamente por existirem estes riscos que a ação humana — pedagógica, ética e tecnológica — se torna ainda mais necessária.
c) Caminhos de ação
Foram apontados vários caminhos de ação ao nosso alcance, enquanto cidadãos (individual e profissionalmente), não para “voltar ao passado”, mas para construir a autenticidade possível no mundo digital.
Perspetivas críticas e propositivas apresentadas:
c) 1. Reduzir a lógica da aceleração (contrariando Virilio)
- criar espaços de aprendizagem e participação assíncrona (como os fóruns);
- promover tempos de reflexão, consolidação e argumentação;
- incentivar profundidade em vez de imediatismo.
c) 2. Combater o simulacro com práticas de autoconsciência digital (contrariando Baudrillard)
- desenvolver literacia crítica sobre algoritmos, filtros, curadoria e identidade digital;
- promover atividades pedagógicas que desvendem como se fabrica a hiper-realidade;
- trabalhar a distinção entre “reputação digital” e “identidade autêntica”.
c) 3. Criar ecossistemas digitais de confiança
- transparência nos critérios de avaliação e nos processos formativos;
- comunicação clara e rastreável;
- ética da interação entre estudantes, formadores e comunidades digitais;
- construção colaborativa de normas de convivência online.
c) 4. Redefinir autenticidade no contexto atual
Em vez de procurar “a autenticidade perdida”, defendeu-se uma autenticidade contextualizada, que reconhece a mediação digital, mas privilegia:
- intencionalidade;
- consistência;
- responsabilidade;
- integridade entre o que se diz, o que se faz e o que se publica.
c) 5. Valorizar o papel dos educadores e formadores como mediadores críticos:
- criar atividades que valorizem aprendizagens significativas;
- promover metodologias que tornam os estudantes criadores e não consumidores;
- fomentar práticas colaborativas que substituam o individualismo hiper-mediado por interações com sentido.

III – CONCLUSÃO FINAL
Os debates permitiram reconhecer que a transformação digital traz ameaças à autenticidade, à transparência e à confiança. Contudo, integrando os alertas de Baudrillard e Virilio, ficou claro que não estamos reféns da hiper-realidade, do simulacro e da simulação, nem dos efeitos da dromologia, onde a velocidade compromete a reflexão e a profundidade.
Há espaço para atuar — pedagogicamente, socialmente e tecnologicamente — na construção de novas formas de relação humana adequadas ao nosso tempo.
A autenticidade e a confiança digitais não serão iguais às das interações físicas proporcionadas pelas emoções presenciais, mas podem ser ativas, conscientes, críticas e co-construídas, integrantes das relações decorrentes dos novos “eus sociais”.
E é neste horizonte que educadores e formadores têm um papel decisivo: transformar a mediação digital num espaço onde a experiência humana autêntica, transparente e confiável não se dissolve, mas se adapta, reinventa e complementa, com sentido crítico e criatividade.
Neste sentido, a parábola do Dalí digital ganha um valor educativo singular, não para rejeitar o simulacro, mas para trabalhá-lo criticamente. Deste modo, o Dalí digital não simboliza apenas o triunfo do simulacro, mas também a possibilidade educativa de o compreender, questionar e transformar — contribuindo para a construção das novas formas de autenticidade, transparência e confiança que o mundo pós-digital exige.
Artigo atualizado a 07/12/2025, 19:27.
Referências:
Baudrillard, J. (1988). Simulacra and simulations. In M. Poster (Ed.), Selected writings (pp. 166–184)
Baudrillard, J. (1994). Simulacra and simulation. University of Michigan Press.
Estudantes do mPeL. (2025, 26 novembro–3 dezembro). Debates sobre Autenticidade e Transparência na Rede [Fóruns de discussão]. UC Educação e Sociedade em Rede (mPeL), Universidade Aberta.
Lopes, N. (2007). Paul Virilio e a aceleração da informação: análise crítica [Dissertação de Mestrado, UTAD]. Repositório UTAD. https://repositorio.utad.pt/bitstreams/dfa47b95-0907-4dc2-bab0-e049ebc8279f/download
Teixeira, A. (2025). Orientações para a Atividade 3: A hibridização social no mundo pós-digital. UC Educação e Sociedade em Rede (mPeL), Universidade Aberta.




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